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O feriado é o único lugar em que o brasileiro quer realmente morar. É por lá que temos um bom indulto para vagabundear sem culpa. Com a maior precisão aritmética, o brasileiro contabiliza dias rumo à uma folga exemplar.

Nada mais humano que a matemática da vadiagem. Mas entendo, a gente está vivendo o massacre do vício de parecer importante, ocupado e produtivo. Daí a impressão que só um alivio de um recesso pode nos salvar disso tudo.

Há muita expectativa no feriado. A esperança de que podemos ali, finalmente, escolher o que fazer com nosso tempo. Nada mais luxuoso do que poder definir como vamos desperdiçar nossas horas. E tem mais, o feriado bom é o prolongado. …


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Desde que decidi me afastar dos modelos clichês de produção de conteúdo — com seus manuais dos “x coisas que…”, numero mínimo de caracteres, os fetiches dos keywords e todos os mandamentos do deus do SEO — percebi que ganhava muito mais relevância entre os públicos.

Já é comum falar sobre humanização do conteúdo, mas a verdade é poucos conseguem se livrar realmente da ditadura do modelo prontos impostos pelas gigantes do marketing de conteúdo. Não sou o único que tem visto péssimos materiais circularem por aí. …


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Paro diante do lugar combinado e também da minha ansiedade por entender melhor aquele momento. O motorista confirma o local apontando o dedo para a entrada do estabelecimento. Um hambúrguer de improviso no meio da semana não é nada mal.

Agradeço o piloto. Paro em frente ao local, checo mais uma vez o celular e vejo, acidentalmente, ela olhando o celular pela vitrine da frente. Ela não nota, mas eu fico a olhando dali aquela única mesa ocupada.

Subo as escadas e lá está ela. Linda. Roupa colorida como ela sempre é. Portando os mais irresistíveis dois furinhos bem no meio das bochechas. Um atentado a delicadeza. Um convite a apreciação. …


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Você anda cansado. Sente que a sua vida profissional saiu totalmente dos trilhos. Pode ser que a carreira dos sonhos não tenha chegado, mesmo depois de ter realizado aquilo que julgava ser o melhor caminho, com os recursos que tinha em mãos.

Talvez você sinta que está perdendo energia e tempo tentando convencer as pessoas que você é bom no que faz. Na verdade, acorda cedo todo dia para participar de reuniões num trabalho de merda, tudo por causa das responsabilidades e compromissos pessoais, familiares e financeiros que assumiu.

Você sabe que não tem escolha. Não consegue sair das convenções que te esmagam. Não sabe livrar-se das obrigações insuportáveis. Não quer ser considerado um irresponsável. Não sabe chatear pessoas. …


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Quer ver como você é preguiçoso naturalmente? Acabou de ver o tamanho do texto e já deu preguiça, mesmo eu me propondo a te ensinar algo novo. Tudo bem, é um sinal de que você está realmente precisando de ajuda.

Eu tenho uma rotina bem sistemática de produção, mas não considero que esteja preso a realidade fixa das minhas tarefas. Tento manter-me completamente na ativa sempre que é necessário ao mesmo tempo, em que aprendi a produzir do jeito certo.

Todo mundo que produz tem seus dias ruins e a produtividade resolve não dar as caras. Já tive dias inteiros debruçados em tarefas menos empolgantes, sem a mínima vontade de prosseguir, sem sequer conseguir olhar para o laptop. …


Em 2018, fui convidado para palestrar na FIESP. Não sei se você sabe, mas é uma das instituições mais respeitadas do país. Eu tinha apenas 26 anos. Um jovem garoto que havia escrito algumas coisas na internet e uma pequena carreira como jornalista.

Estava um pouco nervoso apesar de ser acostumado a ser um orador. Entrei no famoso teatro, não consegui deixar de notar que nunca tinha falado para tantas pessoas juntas. Por alto, chutei mil pessoas enchendo o lugar. Talvez fosse metade, mas a minha sensação era imensa.

Estavam todos ali esperando para me ouvir. Quando anunciaram meu nome, me veio um frio na espinha. Subi no palco como quem recebia um Oscar. …


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Ela tem uma mansidão involuntária. Como sempre digo: uma peça esgotada da belle époque perdida nesse caos pós moderno.

A vejo como um pedaço de nuvem que, mesmo tragado pelo esplendor de um dia nublado, tem seu anonimato rompido pelo seu cinza descoincidente. Ela não me deixa descrer no ser humano.

Não carrega com ela um cinza qualquer. É uma cor nada lívida. Uma nuvem nômade, que atravessada por um raio de sol, se coloriu para anunciar que ainda há a esperança do lado de lá. Sempre há esperança para quem confia no sol.

Na sua generosidade florida, esconde no peito um amor louco para sair da jaula. Um desejo de vida abundante. Uma fera polida, minuciosamente requintada, inofensivamente apta a defender o tom satisfatório da amorosidade convencional. …


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Como nasce um escritor? Eu diria que não é na primeira linha deflagrada, mas no primeiro impulso de compartilhar um momento. Comecei a escrever quase como que por um descuido. Deixaram-me, ainda muito jovem, brincar de embaralhar palavras e as lançar no mundo afim de expressar todos os meus delírios juvenis absurdos.

Eu tinha 17 anos quando vomitei meu primeiro texto público. Pra ajudar, tenho quase a mesma idade da internet. Mas, assim como ela, passei a ter mais expressividade na maturidade dos vinte e poucos.

A possibilidade de criar conteúdos e os espalhá-los nas redes sociais fez com que cada sujeito se tornasse um coreto esgoelado no meio de uma praça. …


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O sol se punha apontando o fim do expediente. O dia todo cheio de reuniões inúteis intermináveis e emails cheios de inexatidão pra todo lado. Checou o celular que explodia de mensagens variadas. No meio delas, um fio de esperança surgia em poucos carácteres.

“Eu tava pensando aqui, faz tempo que estou para devolver suas coisas que ficaram comigo da última vez. É que já tem muito tempo e depois não nos vimos mais. Queria devolver para você. Quando podemos marcar?”.

Ele nunca se importou com a ausência das suas coisas, mas sim com o afastamento da moça. É como se aquela mensagem conseguisse trazer vida para um dia complemente sem graça. …


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Este texto faz parte de uma troca de correspondências entre os escritores Matheus de Souza e Murillo Leal. Durante a quarentena, toda sexta-feira, um dos autores escreve uma carta no Expresso Tailândia-Brasil.

Leia a carta anterior do Matheus aqui.

Matheus, seu insurgente de merda,

Sei que escrevo esta carta com duas semanas de atraso. Livro-me de dizer qualquer desculpa esfarrapada. Parto pra mais pura verdade fraternal: demorei muito para responder porque declaradamente não estou dando conta de mim.

Não posso mentir diante da estatueta fosca da nossa velha amizade, muito menos diante dos cinco ou seis leitores insistentes — sendo arrogantemente otimista — que batem os olhos e passeiam nestas cartas blasfêmicas. …

About

Murillo Leal

#Jornalista e #escritor • TOP VOICE #linkedin 390 mil seguidores • Especialista em #storytelling • Colunista @rockcontent | murilloleal.com.br

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