Abadá, caneca, fumaça e cerveja pro alto — um raio-x das cervejadas universitárias

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O homem negro esgoelava no portão de entrada do centro de eventos de Londrina: “Olha a Caneca! Baratinho aqui, ó? É pra acabar, ein?”. Eufóricos, um grupo de jovens — pouco mais dos vinte anos — se aproxima do homem.

O traje era caricaturalmente à rigor: Um abadá surrado, um Ray ban classe-média, um clássico par de Vans no pé e o brasão da atlética estampada no boné virado para trás e nos shorts curtos. A inocência do jovem é não notar que de tanto querer ser o diferente torna-se uma cópia fiel do outro.

Na cabeça, os cabelos de toda cor da paleta do arco-íris. Um festival de cortes a la Neymar, mas também o desejo juvenil de uma incontrolável transgressão na ausência dos pais. Sem babá, todo mundo é mal-criado.

Quem não tinha uma caneca, escolhia a sua como quem busca um artefato histórico entre os ambulantes. Eram exigentes com todo aquele plástico. Outros, portavam a caneca como um guerreiro que se orgulha da sua espada.

Aponto para uma caneca qualquer e pergunto quanto custa. “25, meu jovem. É dinheiro?”, disse todo ofegante. Não escondo a cara de espanto e retruco: “Não, não ando com dinheiro tem uns anos. Mas, 25 é um pouco caro, não?”.

Ele hesita com um sorriso amarelado — talvez esteja passando pela sua cabeça como é que alguém pode gastar de 50 e 100 reais num ingresso para beber a vontade e tenha a pachorra de titubear com 25 reais para um trabalhador.

Dou uma olhada em algumas das canecas, ele percebe que vou desistir e me oferece mais barato. Forço a barra. Ele não insiste: “É que cartão você me quebra né, chefe?”. Agradeço e entro sem o acessório. O velho copo de plastico resolve.

Aquele grupo que citei antes já não escondia o sorriso bobo como de quem ia para à Disney pela primeira vez. O ambulante, provavelmente nem sabia onde fica os EUA. O Uber daqueles garotos é todo o salário do ambulante.

Cerveja pro ar, corote pra dentro

Era 18h02. O início estava marcado para às 16h. Alguém me explica que antes de entrar, tenho que comprar um quilo de alimento. Coincidentemente, há uma barraca ao lado da entrada que vende um vale-alimento. Eles pensaram em tudo.

Sem fila, o segurança coloca mão em mim. Duas ou três apalpadas e me manda seguir. Mais adiante, olham meu nome sem conferir minha foto. Não parece um grande desafio, caso alguém queira entrar com drogas portáteis ali. Escobar sentiria inveja.

Atravesso um portal inflável de um dos patrocinadores bem na entrada, olho no relógio novamente, calculo que, naquele ponto, já tinha rolado umas 2 horas de festa.

Procuro a barraca da cerveja. A muvuca estava formada. Já é possível ver algumas pessoas alcoolizadas. Aliás, o funk já tinha começado. Todo mundo sabe que o funk com álcool é uma combinação perfeita para a timidez primaveril ir embora.

Mesmo que seja considerada uma cervejada, quem faz sucesso é outra bebida: O tal do Corote. É a celebridade da juventude. Todos alimentam uma espécie de fetiche alcoólico com o líquido de cor duvidosa. Não tive coragem nem de bicar aquilo.

A bebida é doce e barata, e, por isso, o seu consumo acaba sendo bem popular entre os jovens. Na embalagem, o teor alcoólico aponta 13,5%, e mesmo que seja mais baixo que as tradicionais bebidas destiladas como uísque e vodka, tomar num intervalo de poucas horas potencializa ainda mais o efeito de zonzera.

Aí está a explicação do fenômeno ser adorado entre os estudantes: Ficar bêbado rápido para ter coragem de ser alguém que não é quando se está são.

Eu sou do mundo inteiro, inteiro! (Eu sou do carnaval!)

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Agora são quase 20 horas. Resolvo dar uma volta para reconhecer melhor a festa. Caminho entre quase 4 mil pessoas (com a sensação térmica de 50 mil).

Vou em direção do trio elétrico que conta com a presença do Jammil, uma velha banda brasileira de axé , uma breguice bem aceita como retrô. A maioria daqueles garotos nem lembram de ver essa pobreza musical no Domingo Legal, mas ali não é lugar para memória.

Dentro o repertório de sucessos do grupo está a canção “Praieiro”. Basta o hit começar a tocar e as pessoas vão a loucura. Nesta hora, há cerveja em todo lugar, mas especialmente voando no ar. Uma das febres desses eventos é a chuva de cerveja que molha quem estiver embaixo. É um batismo democrático a céu aberto.

De camisa encharcada e tênis cheio de barro, acompanho (com o olhar) gente de todas as idades, raças, credos e lugares numa espécie de sequência de coreografias sincronizadas. Quem não dança, está no meio dos beijos coletivos como um grande rodízio de bocas. Uma babilônia fake. Uma woodstock que no lugar do estilo Hendrix, tinha o estilo Ivete.

A tinta por todo o corpo esconde o rosto, mas não as intenções. É como se ali, fosse um escape ilusório da realidade. É como se fosse uma terra sem lei, sem ética, sem vigilância, sem pressão, sem medo de ser a mais essencial e inconsequente alma juvenil.

Todo carnaval tem seu fim

21 horas. Decido ir embora, mas antes preciso ir ao banheiro. Constato que a bexiga de um rapaz de 28 já não é como a de um de 20.

No caminho, encontro gente espalhada pelo canteiros como quem não sobreviveu à uma guerra, tenho que driblar o vômito líquido de quem não come há horas (o quilo de alimento seria útil agora), esbarro com um garota só de sutiã e um rapaz com um delay no olhar. Pensei que a mãe, em casa, nem sonha com isso.

Giro o pescoço e percebo uma dupla de amigas consolando uma terceira menina. Aproximo-me para saber ver se posso ajudar. Antes mesmo de perguntar se estava tudo bem, tomo uma exortação: “Não, moço, nem vem. Agora não é hora.” Tenho que explicar que não vou dar em cima delas, só quero saber se estão bem.

Uma delas percebe que estou fora de efeitos alcoólicos e desarma-se. Diz que a amiga teve uma decepção com um “carinha que tava ficando”. Lamento com ela, e digo que parece que vai ficar tudo bem.

Ela concorda, agradece e me pede desculpa por ter sido rude. Eu explico que entendo que ser mulher nesses ambientes pode ser realmente complicado. Ela reza um religioso e fervoroso sermão feminista que aprendeu com o professorzinho de sociologia e me agradece a ajuda. Sigo até o banheiro ouvindo a letra da música e pensando em como tudo aquilo era contraditório.

O cheiro de maconha invade o lugar. O banheiro químico é um chiqueiro inutilizável. Há ponta de seda por toda parte e discernimento por nenhum. Fico triste. Parece que a juventude tem os mesmos hobbys de sempre: Ser tudo aquilo que seus pais mais odeiam.

Chegando em casa, recebo uma mensagem de um amigo que diz que quase atropelou um maluco que estava deitado desacordado no meio da BR. Sem abadá, sem boné e principalmente sem juízo algum.

Acho que concordo com o Nelson Rodrigues: O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da inexperiência.

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