O que ninguém te fala sobre almoçar sozinho

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Nos últimos dias, quase todo dia tenho almoçado sozinho. É como se o meu bife fosse aquele velho amigo do colegial que pudesse confessar seus pecados mais ocultos. Pena que logo depois temos que desmantelá-lo com uma frieza ímpar. Acho uma amizade cruel demais, mas um tanto saborosa.

Uma coisa curiosa que percebi nas refeições solitárias é que não só como mais rápido do que o normal — outro dia mesmo, bati meu próprio recorde de almoçar em menos de 3 minutos. Chamem o guinness! — como também tenho ficado bem mais refém do celular para me fazer companhia durante esse período. O Spotify praticamente anula o ambiente. Um muro sonoro enquanto eu observo as pessoas comerem. Rodo o Instagram até o final e assisto a desinteressante vida das seletas cem pessoas que sigo por lá e suas felicidade alheias inconvenientes. Ninguém dá likes em almoços desacompanhados.

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A pergunta óbvia que você me faria é: Por que não chama alguém para comer contigo? E a resposta é simples. Eis aonde eu gostaria de chegar: Não se trata de ter alguém para conversar durante uma garfada e outra, estamos falando de companhia completas, daquelas que podemos ter um papo agradável, que a gente ri de como o outro é desastrado em derramar shoyu na camisa ou de como é engraçado o sotaque esquisito do garçom. Estamos falando daquelas companhias prazerosas que nos fazem pedir um café só para não ter que admitir que acabou. Não estou procurando uma bunda para sentar na cadeira sobrando.

Sinto falta de fazer a mesma piada na hora de dividir a conta, pedir desculpa toda vez que chutar sem querer a perna da outra pessoa embaixo da mesa, demorar muitos minutos em frente de um cardápio interminável de opções, pedir licença para ir ao banheiro em meio a uma conversa desconfortável.

Hoje, infelizmente, só encontramos pessoas que comem aquele capim gourmet de quem faz crossfit — aliás, ninguém se interessa por este assunto durante qualquer refeição— alegando que “pizza em pleno meio-dia é exagerado demais”, aquela gente que fala “porque a minha nutri disse…” Blah! Onde estão as boas companhia do torresmo e mandioca frita?

Lembro de um morador de rua que ajudei outro dia que na sua petulância didática jogou na minha cara: “Vocês não sabem que privilégio é comer com fome. Estão sempre comendo sem respeitar o alimento”. É evidente que isso não quer dizer que eu não tenha com quem almoçar, tenho bons amigos, mas entendo que atravessar a cidade simplesmente para dividir uma refeição é complicado demais hoje.

A verdade é que um bom parceiro de almoço não se acha em qualquer esquina. Almoçar sozinho, no final das contas, é estar ao mesmo tempo com a melhor e a pior pessoa do mundo. Digerir a si mesmo é que é difícil.

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#Jornalista e #escritor • TOP VOICE #linkedin 390 mil seguidores • Especialista em #storytelling • Colunista @rockcontent | murilloleal.com.br

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