Descobri quem eu era, mesmo após achar que já sabia o que sou

Em certo ponto, dei-me conta de que, apesar de acreditar numa estabilidade da pessoa que me tornei, existe uma realidade em que posso não ser exatamente quem acho que sou.

Não era uma questão de desconfiar de toda a biblioteca de referências que construí, de todos os momentos que vivi, das marcas de caráter que ajuntei ou das impressões e lições da vida que tive, mas percebi que elas eram apenas trechos de mim, e não eu completamente.

O primeiro impacto diante dessa realidade foi recusar a constatação. Não consegui admitir que talvez eu não sabia quem eu era.

O que se seguiu, com uma investigação honesta, foi perceber não só a veracidade, mas a necessidade existencial por trás dessa verdade que estava surgindo no meio desse até então jardim de certezas.

Deixa eu explicar melhor com uma cena

Sem me apropriar dos princípios religiosos ou doutrinários, quero ilustrar melhor essa ideia com um trecho de um texto religioso da bíblia.

O Evangelho de Lucas apresenta uma história marcante do filho pródigo, um rapaz que, após recusar a existência, a presença e companhia do pai, solicita toda a sua herança — de forma totalmente legal e lícita — e vai para uma terra distante para usufruir dos seus bens de maneira supérflua, desmedida e efêmera.

O final da história você conhece. O interessante aqui é que, ao relatar a parábola, o evangelista cita, no verso 17 do capítulo 15, o fato de o garoto, ao perceber haver feito uma escolha ruim e colher consequências da sua decisão equivocada, ter sido sequestrado por uma realidade concreta de si próprio assim que percebe que afastar-se de tudo que representava de melhor na sua vida, foi um erro.

O que afasta o garoto do pai não é somente a ganância e a vontade de prazer, mas também a falta de consciência de si, uma amnésia voluntária da identidade e certa ignorância de quem ele é e das suas intenções mais profundas.

O termo usado pelo evangelista Lucas não foi escolhido à toa: “Então, caindo em si”. Esta expressão sempre me despertou para a importância de enxergar a si próprio e a necessidade crucial de se situar no mundo e na realidade como forma de atrair para si mesmo um pouco de consciência.

Eis o primeiro ponto, caros leitores: A capacidade de se enxergar com clareza, sob a luz, é um dom indispensável, mas cada vez mais raro para a humanidade.

Me perceber como sou e não como eu deveria ser

A partir daí, comecei a concentrar-me mais em mim. Analisei de forma mais criteriosa o meu “eu” — não o “eu” racional, abstrato, hipotético, do campo das ideias, cheio de abstrações, mas sim o “eu” concreto e real — que não resulta somente num corpo num espaço, nem um fluxo de sensações e emoções, nem tampouco um aglomerado de pensamentos.

Estou falando daquilo que está para além da minha memória, que responde ao mundo de forma genuína, que vive conforme a coerência tanto para com os outros quanto para consigo mesmo e que é o criador e o observador dos seus próprios conteúdos.

A plena consciência de si, é uma ideia irreal, mas que nos aponta e nos prepara para os desafios do presente. Isso quer dizer que o lugar mais próximo que podemos ter de si mesmo é aquele que responde por aquilo que não conseguimos fugir.

O autoconhecimento mais refinado não é outra coisa senão assumir a responsabilidade por tudo aquilo que se é, sabendo, previamente, do que não pode esconder de si.

Não é somente na especulação racional que existe essa clareza ao se olhar para si mesmo. A sua particularidade é o que o faz atender às demandas do mundo durante as atividades e demandas do dia a dia.

A partir desse eu inegável é que respondo aos estímulos naturalmente — a efetiva ação do eu responsável — e esta é a realidade humana mais direta, universal e permanente.

Manter uma cultura que preserva uma noção clara da individualidade e responsabilidade nos ajuda a responder pelos atos como autor deles, e não como um terceiro que só reage.

Não há um caminho maduro na direção de si sem que haja uma noção clara de autoria, de culpas e de méritos bem identificadas.

A cada dia que passa, fico mais convencido de que o nosso “eu” não é resultado da soma de papéis sociais. Além disso, somos constituídos pela individualidade de um lado e, do outro, pela tradição da memória.

Em outras palavras, os seres humanos são constituídos pela recordação de estados interiores revividos, assim como pela mais pura familiaridade do indivíduo consigo mesmo.

A consciência da existência da consciência

A noção básica da consciência não é uma coisa, nem um estado: é apenas um conflito permanente na busca de mais sentido, mais responsabilidade, mais abrangência, mais significado e maior integração social.

O autoconhecimento aumenta à medida que a pessoa se reconhece, e essa não pode fazer isso a não ser se permitindo estar sempre aberta a novos aprendizados, que ultrapassam o que já sabe.

A capacidade de ir para além do que é conhecido atualmente é, portanto, uma característica permanente da clareza e da maturação da estrutura da consciência. Negar a sua intenção óbvia de investigar mais sua realidade é enganar, desde o princípio, a intenção de compreensão verdadeira de si.

A verdadeira natureza do homem é ser responsável. Isso é demonstrado nas relações mais básicas, onde uma pessoa espera que o outro compreenda não só as ações, mas a intenção e o eu por trás delas.

A responsabilidade de descobrir-se e assumir-se é um dos pilares fundamentais da sociedade humana. Ele é a fonte de todas as ideias, invenções, organizações, leis, costumes, estruturas.

Tudo aquilo que não seja compreendido como um resultado dessa descoberta será tratado como se fosse algo externo, uma ocorrência surgida no mundo por coincidência.

Este é o nível de fantasia que sobrou na sociedade como consequência da ruptura com a linha histórica da tradição e da perda de memória da realidade já vivida.

Muitos preferem se concentrar na sua própria percepção distorcida da sua realidade, ignorando a crítica, e agindo segundo o que lhes convém, e evitando certificar-se que a consciência de si mesmo muitas vezes é uma forma elegante de não fugir da realidade.

Quanto mais corremos da realidade, mais nos distanciamos de nós mesmos.

@lealmurillo | Jornalista | Top Voice Linkedin | Palestrante e Professor | Storytelling e Conteúdo

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Murillo Leal

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