Ela não me deixa esquecer do dia dela

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Ela tem uma mansidão involuntária. Como sempre digo: uma peça esgotada da belle époque perdida nesse caos pós moderno.

A vejo como um pedaço de nuvem que, mesmo tragado pelo esplendor de um dia nublado, tem seu anonimato rompido pelo seu cinza descoincidente. Ela não me deixa descrer no ser humano.

Não carrega com ela um cinza qualquer. É uma cor nada lívida. Uma nuvem nômade, que atravessada por um raio de sol, se coloriu para anunciar que ainda há a esperança do lado de lá. Sempre há esperança para quem confia no sol.

Na sua generosidade florida, esconde no peito um amor louco para sair da jaula. Um desejo de vida abundante. Uma fera polida, minuciosamente requintada, inofensivamente apta a defender o tom satisfatório da amorosidade convencional. Uma advogada do réu amar.

Na perplexidade da sua pouca idade, espanto-me com aquele caráter permanente, e que, mesmo num tumulto de sentimentos, tratei de guardar as reminiscências daquele olhar me implorando por ser amada. Um grito mudo atravessava a noite. Um desejo de acolhimento, domado pelas convenções.

Quanto mais a observava, mais descobria pétalas soltas. Numa distância singular, hoje, tento cuidar dela. Zelar pelo que é. A carrego comigo ignorando o intervalo da lonjura, numa aproximação de almas continental.

Deito sob meus cobertores e agradeço por aquele papo de fila, pelas mesas compartilharas e pelas circunstâncias divinamente improvisadas. Rememoro um dia especial, aquela noite de palavras volumosas e de almas trocadas num esquivo finito de troca de afinidades.

Dois estranhos imediatamente ligados. Um fio invisível. Conheciam-se a si mesmo enquanto ouvia o outro falar. Um encontro catedrático. Emblemático. Inadiavelmente humano. Naturalmente divino.

Apanhado pela surpresa, eu olhava aquele jovem coração querendo viver tudo de uma vez, num impulso frenético da empolgação, querendo saltar da vida sem sentido para uma existência intensamente profunda. Fora do seu tempo. Fora de si. Fora do que lhe era comum. Longe da realidade que lhe era cabida para o momento.

Abriu-se. Tinha medos legítimos e uma coragem atípica de ser. Na sua mente, uma biblioteca de corredores largos, com prateleiras ainda incompletas. Uma busca incansável por encontrar, no meio dos títulos acumulados e dos conhecimentos conquistados, uma grande razão para viver. Sem se dar conta que tudo que o mundo tinha para ela era sua própria coragem de não enfraquecer. Pouca idade e uma consciência rija.

Entre sonetos e incertezas, entre um cântico e a imprecisão, entre a prece e a interrogação. Morava ali. Essa menina inconfundivelmente dócil cindindo a vastidão do seu ser no mais profundo celeste, fundindo seu caráter com a vida cristalina, devassando a terra das incredulidades, guiando-se num mistério óbvio que comanda o mundo.

Viu-se nela, todo o ouro reluzente, mas nunca notaram a mais explícita das capacidades, a mais linda das virtudes, a mais invejável das aptidões, o mais elegante dom que trazia consigo: A beleza de quem insiste no Amor.

Desde então, diariamente, deito-me, baixo os olhos na altura da minha mansidão e peço descaradamente aos céus: Nunca deixe faltar nela este orvalho da Tua dadivosa graça. Cuide da mente, da alma e do coração dessa peça rara.

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