O obstáculo da realidade e a verdade das dificuldades

Murillo Leal
5 min readJan 30, 2023

A vida é feita de contrariedades, complexidades e dúvidas. Enxergar com nitidez o mundo é, sem dúvida, o que salva a todos de sofrer.

Na minha visão, há no mínimo duas formas de interpretar a vida por meio de raciocínios indutivos e aprender a compreendê-los nos ajuda a tomar decisões melhores.

A primeira é uma associação por relação factual e a outra se dá pela conexão mental (ou lógica) de imagens. Uma é dada pelo objeto visivel e outra pelo curso dos fatos.

Vamos por partes. O primeiro exemplo é consequência de sinais nítidos que transmitem a situação vivenciada de maneira real como principal método de reflexão. Ou seja, os olhos captam apenas o que se é. Nu e cru.

Nesse modelo, pensamos, por consequência, sem nos basear nas nossas representações mentais, e sim nos objetos em si que estão a nossa disposição para a experiência.

Imagine, hipoteticamente, que esteja sendo ameaçado por uma pessoa violenta. Você percebe que as ações dela pode te agredir fatalmente. Somado a isso, percebe que a intenção daquela pessoa de lhe ferir também é naturalmente má. Você chega a uma gama de conclusões sobre o que pode ocorrer em seguida, com base no que é apresentado na situação.

Claro que não dá tempo de transformar aquela situação hostil numa ideia bem elaborada, ou fazer uma construção mental completa, lembrar toda a situação de ameaça que possa ocorrer e compará-la a outras formas de perigo para concluir de que vai morrer. Não houve tempo para isso.

Nesse caso, você raciocinou com o objeto presente, exposto e constatável, e não com símbolos.

A segunda ideia aqui é entender a intuição para fazer ligações lógicas. Essa hipótese surge dos seus pensamentos mais simbólicos, quando os reflete posteriormente a partir de signos, imagens, atributos e sinais.

Sempre é possível que, ao enfrentarmos uma situação inédita, não tenhamos a compreensão total do que está se passando. Dessa forma, denominamos essa experiência como pressentimento ou intuição.

Nesse outro caso, construímos o raciocínio lógico completamente verificando se ele está correto e buscando ter a estabilidade da análise. Bem, mas, de onde vem essa convicção?

A primeira forma de raciocínio — baseada em fatos — não é, necessariamente, mais incerta ou falível do que a segunda. É um raciocínio induzido, exatamente igual.

Por que um pensamento é acompanhado do sentimento de certeza, enquanto outro não é? É óbvio: o segundo pensamento foi totalmente criado por você. Você conhece todos os elementos da fórmula do raciocínio.

O controle e domínio lógico que você tem das estruturas mentais que você mesmo construiu para reproduzir a situação parece ser o domínio cognitivo real sobre o fato, quando, na verdade, não é.

Por exemplo, se você conhece todo o esqueleto humano, não te faz conhecer como o corpo inteiro funciona, porque nele há muitas outras redes de e sistemas funcionando. Dominar a forma da estrutura não é dominar o conhecimento.

De fato, o primeiro pensamento — fundamentado nos fatos — é muito mais correto que o segundo pensamento, que se baseia nas construções lógicas, pois não é indiretamente influenciado pelos sinais, mas sim pelas informações imediatas da situação.

A cultura atual e o tipo de educação que recebemos sempre nos incentivam a depositar mais confiança no segundo tipo de raciocínio — o da ligação mental ou lógica — do que no primeiro — aquele que se baseia em eventos.

Diferencia-se um como sendo uma simples intuição, impressão ou pressentimento, enquanto o outro é racional e, pode ser comprovado cientificamente.

O raciocínio por conceitos parece mais lógico somente porque você tem o domínio completo sobre o processo de construção dele e o controla, uma vez que o criou. Você percebe uma ligação racional entre ideias, e não uma relação real entre objetos. Agora, a conexão lógica entre conceitos pode representar a conexão real, mas não é a conexão real.

Isso é tão verdade que os sujeitos que foram submetidos a experimentos de lógica imprecisa logo criam hipóteses e essas teorias às vezes divergiam: uns explicavam de uma forma, e outros explicavam de outra.

A consequência mais óbvia disso é o resultado de duas formas de dedução.

Aquela que segue os fatos costuma terminar num relato puro do evento, enquanto aquela que segue as teorias lógicas resulta num produto mítico do fenômeno.

No primeiro exemplo, temos uma situação eventual que se apresenta. No segundo, temos uma sequência em cadeia de categorias e conceitos que a definem.

Não podemos dizer que o primeiro contacto foi vago ou confuso, uma vez que a sua estrutura é semelhante a de qualquer outro raciocínio por indução.

A confiança naquilo que é chamado de “pensamento racional consciente” é ilusória, pois é apenas a conexão entre as ideias que nossa mente criou.

Por que temos a impressão de que temos mais controle dos conceitos do que dos fatos? É porque você não criou os fatos, mas conceitos e maneiras de pensar inteiramente, sim.

Essa sucessão de pensamentos em formas, estruturas, configurações, modelos e aparências está se apresentando a você como toda a realidade. Dessa forma, a dedução baseada em fatos e os dados que estão sendo apresentados não foram criados por nós.

Em termos de como somos induzidos a lidar com o conhecimento, o processo simbólico parece ser mais correto e confiável do que o processo factual. Só que este é o engano.

Isso ocorre porque costumamos confundir o controle que temos sobre os nossos próprios pensamentos com o domínio do conhecimento de uma situação externa de verdade.

O subjetivismo tem sido tão predominante por tanto tempo que até as áreas das ciências elementares, da psicologia moderna e da educação tradicional abraçaram essa ideia.

As pessoas são ensinadas a pensar vagamente, sem perceber a ligação lógica real entre os fatos.

Não existe nenhum lugar no mundo hoje que ensine diferente disso. Tudo isso é considerado apenas como uma intuição, resultado do subjetivo.

A morte da verdade objetiva inaugurou uma maneira de pensar que consegue criar, mas nunca de chegar à realidade palpável. Como é possível perceber os fatos sem designar o objetivo? Como não misturar aquilo que foi a sua própria mente que criou daquilo que está dado na própria situação objetiva?

O fato é que há uma inversão completa e recuperar certa objetividade não nos faria nenhum mal.

De nada adianta um mecânico que, diante de um automóvel precisando de manutenção, esteja mais preocupado em palestrar sobre carros do que consertá-lo de fato.

O mundo inteiro está migrando para esse modelo que despreza o óbvio, e valoriza o conceitual.

Nesse sentido, a realidade se torna não um objetivo, mas um obstáculo e as dificuldades são negligenciadas porque ficam longe da verdade. É uma inversão total.

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Murillo Leal

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