O perigo das fraturas na queda da qualidade do conteúdo

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Desde que decidi me afastar dos modelos clichês de produção de conteúdo — com seus manuais dos “x coisas que…”, numero mínimo de caracteres, os fetiches dos keywords e todos os mandamentos do deus do SEO — percebi que ganhava muito mais relevância entre os públicos.

Já é comum falar sobre humanização do conteúdo, mas a verdade é poucos conseguem se livrar realmente da ditadura do modelo prontos impostos pelas gigantes do marketing de conteúdo. Não sou o único que tem visto péssimos materiais circularem por aí. É fácil notar que, de modo geral, assistimos o conteúdo cair para níveis que, eventualmente, ameaçam sobrevoar o subproduto da importância.

Não posso medir apenas pela padronização da produção, que veio empobrecendo o mercado até tornar-se praticamente uma fábrica do mais do mesmo.

Meço pela quantidade de textos que me chegam, cada vez mais repletos de inutilidades e barbarismos grotescos de sentido, pelos comentários cada vez mais escassos, pela intenção de auto proclamação de “autoridades” e, principalmente, pela fuga das discussões públicas.

Diante dessa avalanche de postagens, o que mais destaca aos meus olhos não é o vazio de valor, nem a pobreza de argumentação, mas é a miséria de empatia e a incapacidade geral de perceber aquilo que é realmente essencial.

A maioria dos conteúdos que vejo são apenas um adorno dispensável. Uma lacuna improvisada no feed. Não estamos produzindo conteúdos decisivos para nosso público, mas, de fato, enchendo as redes de coisas irrelevantes.

Repare que na maioria dos conteúdos não há problema a ser resolvido, não há tema específico, não há sequer assunto a ser levantado. Excluímos do nosso arsenal de publicações as grandes temáticas. Por outro lado, o que era para ser um bom palco se assemelha a um show no picadeiro.

A finalidade dos conteúdos é embaraçada, como se não tivesse um centro, um significado realmente expressivo ou um sentido fundamental em torno de empreender uma discussão coerente.

Embora as redes sociais sejam apenas um reflexo do ser humano, é preciso entender que elas não se resumem a externar algum sentimento subjetivo, que seja pessoal e deslocado da realidade. Parece-me que entendemos que produzir conteúdo serve apenas para exibir bom-mocismo, para buscar simpatias globais, para criar uma tentativa de promover apenas uma rodada de apresentações pessoais ou profissionais sem realizar uma conversa franca.

Perceba o quanto do conteúdo criado hoje tem de maneira clara o objeto da sua iniciativa, algum fato realmente expressivo, o tema realmente significativo. É como se todas essas coisas ficassem apenas num canto quieto enquanto o narcisismo realmente brilha na luz focada do palco. Falar sobre isso é realmente provocar o status quo.

Se realmente reproduzirmos mais do mesmo como se não existisse outra alternativa, depois de algum tempo, a criatividade e a autenticidade deixa mesmo de existir. É nesse ponto que muitos produtores estão. Não conseguem mais criar, porque passaram uma vida toda reproduzindo.

A impressão que me resta ter é de que a grande parte das pessoas que se propõe a escrever está sofrendo de uma obrigação de dizer, mesmo sem saber ao certo o que ela mesmo pensa.

Não dá para viver apenas da imaginação contemplativa que sai logo voando perto da realidade. Um produtor de conteúdo tem que ser importante para seu público para além da sua mente embevecida. Temos que abandonar o compromisso em torno do nada.

Para ser honesto, vejo que há muita questão que precisamos corrigir. A começar pela falta cada vez maior de mão-de-obra qualificada que saiba realmente porque se tornou um produtor de conteúdo.

Temos que combater a debilitação alarmante de distribuição de conteúdo que as mídias sociais nos impõem com suas regras próprias e suas definições que matam por inanição a relevância dos produtores.

A abominação completa da falta de debate, que alimenta uma criação de bolhas ideológicas, de guetos sócio-políticas, de discursos pessoais radicais e narrativas pseudo-intelectuais.

É catastrófico para o mundo dos conteúdos um universo intelectual que tem como função anular a grande circulação de ideias num mundo plural. Se me perguntam a causa dessa derrocada feita por vexames colossais no conteúdo, diria que é óbvia: já tem anos que vemos alimentando uma realidade de pessoas que se gabam de ser o que realmente não são.

Criamos falsos pensadores que reproduzem conhecimento sem o menor pudor, critério e preocupação com a qualidade.

Além disso, se queremos entender porque os temas fundamentais não aparecem e nem são discutidos é porque a maioria dos canais de comunicação — especialmente as mídias sociais como esta — dão atenção ao que realmente é numérico.

Não adianta nascerem produtores de conteúdos dispostos a debater, a criar, a ser importante, se a diretriz da relevância for sempre desviada para detalhes laterais.

Afinal de contas, quem molda os debates públicos, é a própria ferramenta, que muitas vezes, não permite que nada seja discutido exceto nos moldes do seu seleto glossário.

Estão promovendo debates, desde que seja dos seus interesses comerciais, que pertença a sua agenda institucional, que promova a sua futilidade endereçada, que endosse a sua ambição megalômana de controlar mercados e, por último, da mais poderosa arma no mundo atual: a traiçoeira auto adoração abjeta do mundo corporativo.

Enquanto a gente não entender de uma vez por todas que somos apenas produtos na mão de uma grande e poderosa redes de contatos, nada do que julgamos sério será levada adiante e será em vão qualquer conteúdo.

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