O que ninguém fala sobre terminar por comum acordo

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Nelson Rodrigues em seu comum exagero cênico disse: “É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata..” Apesar de considerar a frase do jocoso escritor uma pérola cômica, parece que as relações atravessam naturalmente por crises de identidade.

No último tempos, choveram notícias de famosos que eram casados mas separam-se depois de anos de relacionamento. Todo mundo parece ter sido infectado com o vírus do cantor Fabio Júnior.

O ponto que quero chegar é: Ao serem perguntados sobre qual teria sido a razão e quem tomou a iniciativa da separação, a resposta parecia ser combinada como um jogral ensaiado: “Descobrimos que somos diferentes e a decisão da separação foi de comum acordo!”

Ah, peraí. Já falamos disso. Eu mesmo passei por uma ruptura de anos.

Bem, mas antes de estender, preciso lembrar que as outras pessoas ao redor, quando leem, ficam sempre pensando: Como assim alguém acorda um dia, toma seu café às sete e quinze antes do trabalho, e conclui que não ama mais o outro que dividiu anos a mesma vida? Como assim quem repartia do mesmo sonho, um dia toma suas roupas e pertences e parte para uma nova vida?

É, estranho sim. Eu sei. Não é assim que a coisa funciona. Aliás, suspeito que a verdade é que esta cena é meramente uma civilidade. Explico.

Como assim, amor?

Nesses casos, sempre tem aquele que decide e aquele que é surpreendido. Alguém sempre dá o primeiro pontapé inicial. (A redundância é proposital.) Comum acordo mesmo funciona só na hora de ficar juntos. Aliás, se não fosse assim, a coisa ia ter que parar na delegacia.

Bom, no começo, tudo é precisamente decidido em comunidade. Os dois decidem se encontrar, conversar, conhecer-se melhor, sonham e projetam suas vidas conjuntamente, esforçam-se para ser amável, educado e bonito, empenham uma energia abismal para relevar defeitos, e pronto. A união está feita. Comum acordo total.

Até que certo dia, isoladamente, um decide parar e fazer a contabilidade das demandas frente ao amor. Daí, para frente, amigo, é ladeira abaixo. Joga na planilha do amor os débitos e créditos e chega a conclusão que o saldo de amor está insatisfatório. É aí que sai de cena esta história de comum acordo e entra o que chamo de discordância semi-individual.

A boca continua pedindo beijos, a pele ainda anseia por toque, mas a mente e o coração entram em uma epilepsia sentimental. Cada um passa a ver sua vida de maneira particular, até que um deles finalmente toma coragem e diz que quer ser independente do outro.

Este outro, perdido, já havia notado o comportamento diferente do primeiro, mas nunca tinha pensado que esse dia chegaria. O decidido toma as malas e vai sem olhar para trás, e o outro, fica alí, abandonado com suas inseguranças e incertezas.

Nem tudo precisa acabar com barraco

A separação pode ser amigável sim, mas não existe essa coisa de divórcio combinado.

Tem aquele que julgou sua razão mais importante que o compromisso e o outro, que ficou esperando pelo menos o aviso prévio de trinta dias e nada. Um vê o seu lado, e outro, lida com uma fatalidade que lhe foi obrigatória.

Isso não quer dizer que os dois lados não têm danos. A saudade dos momentos juntos, a frustração com a expectativa esperada, a solidão involuntária, a incerteza que já nem costumava ter, tudo isso afeta ambos.

Um rompimento sem duelo, sem acusação, sem ódio, sem choro, não é menos traumático, mas pode ser menos complicado.

Eis o ponto que quero chegar: Sempre existe aquele que decidiu e aquele que apenas não teve como resistir. Um vai embora pensando que fez o melhor, e o outro, fica com a evidência incerta do fim. Um segue em frente mesmo que seja complicado, o outro, fica imóvel, buscando entender como isso aconteceu.

No final, sim, tudo fica bem.

A notícia boa é: O tempo passa para quem vai e para quem fica. Uns podem se arrepender, mas por orgulho permanecer na decisão. Outros, podem acreditar que sua vida acabou, e depois, reencontrar-se consigo, com o outro e com o mundo.

O mais louco é que a vida segue sem pausa para amarrar o tênis. E no final, sempre você descobre que tudo ficou bem. O amor acaba, mas nunca por comum acordo. Não sempre. Acaba porque alguém tinha coragem demais e o outro não.

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#Jornalista e #escritor • TOP VOICE #linkedin 390 mil seguidores • Especialista em #storytelling • Colunista @rockcontent | murilloleal.com.br

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