Ter um amigo escritor é fazer amizade com a aventura

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Sempre achei elegantíssimo a amizade entre autores. Lembro sempre da camaradagem entre Truman Capote e Harper Lee ou J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis enviando cartas entre si. Sempre quis uma amizade, literalmente, literária.

Assim como um leitor pode perguntar-se a razão pela qual dedico um texto inteiro, de cabo a rabo, ao meu estimado amigo Matheus de Souza, o próprio também deve estar encucado com isso. Vamos as razões:

A razão primeira mais óbvia é que me dei conta que coleciono uma série de momentos memoráveis com este figurão sem pátria. Entre noites nos sofás e confusões de ordem presidenciais. Aventuras que, expostas em praça pública, nos colocaria em condição de réu do moralismo barato, mas apresentados numa livro, poderia inspirar uma história Tolstoyana.

O fato é que apesar das diferenças, somos pessoas com gostos semelhantes. Andamos no mesmo gueto cultural, frequentamos a mesma escola de referências, consumimos as mesmas bebidas, vemos filmes semelhantes e livros idênticos. Pasmem. Até as sagradas mulheres que nos interessam carregam os mesmos traços. A fraternidade harmônica é notória.

A segunda razão pra este testemunho é circunstancial. Domingo, vasculhava as irônicas gavetas do meu armazenamento digital num passeio pelas fotografias antigas e encontrei algumas imagens completamente impublicáveis dos momentos que estivemos no mesmo lugar. Nitroglicerina.

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Estávamos quase que unanimemente acompanhados de um ar ébrio e bons amigos, algumas vezes passando do limite moral, tropeçando nos tapetes das etiquetas, varando noites enquanto fechávamos bares, empinando a carcaça na corda da fronteira entre o insano e o tradicional.

De folia de carnaval até karaokês do centro de São Paulo. De bares com cerveja gourmet a vários copos americanos em locais com banheiros imundos. De festival de música alternativa com cerveja quente a meetups de trabalho com gente que se leva a sério demais. Galerias, boates, cafés, balcões. De Augusta a rooftops na cobertura cheios de playboy importantes. A amizade resistiu a tudo isso.

A terceira razão para a existência dessas linhas é bastante singela. Na verdade, é nobre. Trata-se de concordar que ser capaz de homenagear um homem em vida é heráldico. É imprescindível dizer aos homens, enquanto vivos, do seu valor.

Matheus de Souza é uma das criaturas mais inquietas. Sente-se normalmente descômodo ao mundo, e pode ter uma personalidade bastante atípica, é um rapaz de fácil acesso, sem a marra de um literato de carteirinha. É um incomum arroz com feijão em pessoa. Simplório, inofensivo, cirúrgico.

Com a mochila nas costas, carrega tudo. As delícias da liberdade e os pesadelos de ser um homem solto no mundo. Leva consigo os vívidos trinta e poucos janeiros completados, e claro, um pouco de roupa e alguns itens de necessidade. Vive em hotéis e aeroportos. Tudo passageiro.

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Não é de fabricar poses. Tem dentro de si um desejo incabível de pertencer as gerações de seres humanos que o mundo não mereceu. Desconfia do ser humano como um esporte. Ensaia sanidade. Foge dos intelectuais incipientes.

Esta é uma amizade que se resume a um exercício potente no combate à feição antipática da vida. Faz-no recusar nosso temperamento mais esdrúxulo. Mesmo ele, lá, e eu, cá, convivemos. É um tímido escondido nas experiências boas e ruins que o mundo lhe trouxe.

Acho que nos unimos mais diante das loucuras. Num roteiro de vida semelhante que parece ser escritos por uma única mão, nos reconhecemos como parceiros de uma vida imprecisa e, de certo modo, injusta.

Veja só se não são os escritores cheios dos leitores, que foram reconhecidos no mesmo prêmio, que praticam a mesma profissão, para o mesmo público, no mesmo mercado de trabalho.

Repare bem se não são dois divorciados, acidentalmente colocados diante dos imprevistos, mas que cheios de frustrações souberam viver do que mais pulsa nas suas veias: A escrita. A mais nua e virgem capacidade de rascunhar a vida numa grafia ortograficamente registrada.

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Somos dois caras que sentem-se mal nas suas glórias. Buscando a mais absoluta vida descomplicada. A razão que sustenta a nossa amizade é que somos dois escritores esforçando-se em vão para recuperar a aura e o brilhantismo da força da escrita.

Somos dois teimosos tentando convencer o mundo que não precisa correr tanto, tentando explicar que nem toda inercia é vadia, e que tenta reforçar por meio do texto o poder de intimidade com a alma que a presença súbita e ininterrupta deste tempo veio nos arrancar.

Choramingamos de barriga cheia, cometemos as maiores blasfêmias, falamos dos absurdos que vemos e denunciamos defeitos sérios. É uma amizade de combate. Sem vista grossa. Discordantes em pontos e dando-nos razão quando necessário. Nos permitindo ao luxo de ser amoralista de vez em quando.

Ao fim de uma temporada juntos, éramos amigos. Sem justificativas aparentes. Nada acontecera. Nenhuma experiencia pontual que lembrasse um sutil contrato que fosse. Éramos amigos. Mais nada.

Quando já não tiver com quem trocar insultos, conselhos e desabafos, mesmo assim, teremos um ao outro um memorial que irá nos ajudando lentamente na guerra que é viver como escritor.

Matheus trabalha enquanto viaja o mundo. Saiba como ele conseguiu destaque para viver essa liberdade acessando o curso dele neste link.

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