Um dos erros do Prior foi não conhecer storytelling

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Não, este não é mais um texto para surfar na onda do BBB e ganhar likes. É um texto educativo. Ao término da leitura, você vai entender que aqui o assunto é storytelling. Por isso, leia até o final, mesmo que não manje muito de BBB.

A eliminação do Felipe Prior ontem foi histórica, não só porque envolveu figuras públicas no apelo de torcida, mas porque acabou sendo um recorde de engajamento e votação numa edição do programa.

A ultima vez que eu tinha assistido o programa deve ter ser sido lá em 2003 ou 2004, mas, acabei me interessando pelo programa depois de ver a repercussão no Twitter. (E sem esse papo de que BBB é pra gente burra, por favor. Presta atenção no texto)

Enquanto eu assistia o programa ontem, comecei a analisar a jornada do participante Prior e pensar no motivo da sua saída. Fiquei imaginando como foi que ele deixou de ser um dos favoritos ao prêmio para se tornar um eliminado. Descobri que faltou ele conhecer mais sobre storytelling.

Que papo é esse meu consagrado?

Eu tenho estudado sobre histórias, enredo, personagens, universos e tramas por alguns anos, e comecei a tentar entender o fenômeno de ontem a partir deste prisma.

Cheguei a conclusão que o garoto com sotaque paulistano forte, cheio de esteriótipos, teimoso e com peito estufado, poderia ter aproveitado mais o enredo que construiu a seu favor e até ganhar o programa, mas cometeu erros graves nessa narrativa.

Lembro que este não é um texto para avaliar as questões morais, éticas e de valores pessoais do Felipe Prior, mas optei por pensar no rapaz como “um dos personagens mais importantes da história do programa desde então”, palavras do apresentador para ele na sua saída.

Tendo dito isso, antes de tudo, precisamos entender alguns conceitos. Vamos a eles:

O conceito de anti-herói

Este é um ponto importante para nossa análise do Prior.

Sua ascensão no programa se deu justamente porque em determinado momento do jogo, ele teve a coragem de ser uma espécie de protagonista mal amado, um cara que não possui virtudes tradicionais, ou seja, não se importa com elementos que normalmente são encontradas na figura do adorado herói.

O anti-herói — ou herói falho — é conhecido pelo mundo do storytelling como um dos arquétipos de caráter mais comuns para personagens triunfantes.

Este tipo de personagem pode estar presente nas comédias (vide as trapalhadas do rapaz, o clima de danças nas festas, a amizade sincera com seu fiel amigo Babu e nos momentos de descontração que geraram memes) como também nas tragédias do teatro grego (a dramatização emocional das coisas, o frequente conflito presente, o reforço de ser o antagonismo universal).

Felipe estava bem longe de ser um herói. Até mesmo quem simpatizava com ele, sabia que ele tem erros muito importantes de postura, mas justamente isso que o fez um anti-herói popular.

O herói tem sempre compromisso de ser moralmente correto e firme, já o anti-herói normalmente apresenta um caráter moral falho, mas justificado.

O jeito bastante honesto do participante, gerou no telespectador um desejo de romper com os compromissos morais do programa, assim que ele teve a coragem e se demonstrou ativo para fazer o que dizia, ganhou o coração das pessoas.

O anti-herói sempre tem um conflito consigo, e pode até ter um momento redentor, mas logo, falha novamente, e isso, pode ser, muitas vezes, visto como um fim apropriadamente indecoroso.

Felipe Prior sempre deixou claro que o que era sagrado para ele permaneceria até o final com ele, a vitória a todo custo e a lealdade a Babu era a sua batalha diária.

Ele lutou por isso até de maneira obsessiva e estava disposto a alcançar. E isso, todo mundo admira. Mesmo os oponentes. Este modelo de vale-tudo é atrativo para um enredo, ou seja, para o rapaz “quebrar um dedo” para obter respostas é totalmente aceitável.

O que encantou nele é que estava disposto a fazer o que fosse necessário para neutralizar outro que ameaçasse seu protagonismo, e por mais fraco que fosse o herói, à justiça suprema tem um preço moral.

Se tornar o mais legítimo, transparente e honesto jogador para vencer a todo custo foi a melhor, a mais brilhante estratégica e a mais arriscada jogada, mas também o maior erro do Felipe ao mesmo tempo.

Colocar a Manu Gavassi contra a parede diante de milhões foi que o matou. E porque isso aconteceu? Bem, isso nos leva ao outro conceito importante desta análise.

A faceta do vilão surgindo

O público suporta sempre um nível considerável de imoralidade, de justiça realizada, e até perdoa alguns desvios de conduta do personagem, mas nunca, nunca perdoa vilão impune.

É como se a audiência não importasse que um personagem ceda sempre ao alcoolismo para aliviar, mas ela não consegue lidar com uma cena de infidelidade, de truculência, de violência desproporcional.

O erro do personagem Felipe foi fazer com que seu temperamento incontrolável e a sua obsessão, o tornasse violento demais para o público.

Se o garoto tivesse mantido a postura do justiceiro em processo de redenção, e continuasse na luta por ser um anti-herói justificado, talvez pudesse ter se tornado um personagem mais interessante. Mesmo com a cara de mau.

Extrapolar seus limites não foi seu pecado, mas cometer atos moralmente questionáveis sim. Afinal, para o público, isso sim é coisa de vilão. Algumas vezes, é difícil para a maioria traçar a linha que separa o anti-herói do vilão.

Nos olhos famintos de um público cheio de moralidade aparente, ao vilão só sobra ódio, enquanto para o anti-herói, resta um certa aprovação licenciada. Mesmo que o personagem tenha condutas não-aprováveis, seu carisma supera e constrói objetivos comuns com o publico. (vide a falta de empatia e carisma que causou a saída do Daniel)

Ao anti-herói — aquele cara que contesta tudo, que sempre tira tudo a limpo e não tolera hipocrisia — apenas louvores públicos, pois tudo parece justo, ou, ao menos, compreensível. Agora, o que o público não aceita jamais é a vilania gratuita.

A malandragem e a sorte é uma ferramenta tipicamente anti-heroica- e Prior tinha ambas de sobra — , mas a arrogância torna-se algo imperdoável numa história.

Pessoalmente, como telespectador do show, eu gostaria de ver o Prior numa final, mas ele escolheu o caminho de tornar-se bélico demais para a sensibilidade da audiência brasileira, que é formada por gente hiper-sensível e apaixonada apenas por heróis fofinhos.

De anti-herói justificado, pra vilão indesculpável. Em uma semana.

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#Jornalista e #escritor • TOP VOICE #linkedin 390 mil seguidores • Especialista em #storytelling • Colunista @rockcontent | murilloleal.com.br

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